Nunca esquecerei a primeira vez que vi Veneza. Era de manhã bem cedo quando cheguei. O sol iluminava obliquamente as àguas da lagoa e estas pareciam vibrar entre tons de azul profundo e cor de rosa. Uma poeira dourada dava um brilho sobrenatural aos prédios belos e decadentes e à mítica igreja de Santa Maria della Salute, que parecia emergir das águas como uma gigantesca e bela sereia barroca. Mágica e mística, Veneza fez-me chorar só de a ver e para mim ficou recordada num plano acima de todos os outros locais da terra construídos pelo homem.

Queria muito voltar a Veneza. Queria aproveitar para visitar sítios para além do óbvio e ter tempo para sentir com calma a beleza da cidade. Achei que , mesmo sendo quase a representação de destino turístico de massas e a sofrer com isso, a beleza transbordante da cidade compensava os anseios de quem detesta lugares massificados. E mesmo não estando lá assim tanto tempo, no fundo apenas dois dias ( não completos) e duas noites deu para fazer muita coisa e absorver bem o espírito daquele local mágico. Por isso mesmo se tempo for escasso não deixem de ir e aproveitar ao máximo. Fica aqui um pequeno roteiro para quem quer aproveitar bem o seu tempo e ver também alguns sítios não tão turísticos de Veneza mas igualmente belos e carismáticos!
Este roteiro começa ao meio da manhã do primeiro dia, uma vez que chegamos de manhã ainda vindo de Bolonha, no confortável comboio da Italotreno, cerca de uma hora de viagem. Não me canso de recomendar os comboios para viajar dentro de Itália. São rápidos, fiáveis, pontuais e baratos caso os bilhetes sejam comprados on-line e com antecedência.
Ficamos instalados numa pequena mas simpática Locanda, Ca San Marcuola, que se revelou uma excelente escolha. Mesmo a beira do Grande Canal, conta com alguns quartos com vistas para lá ou para outros canais mais pequenos e igualmente cénicos. Fica situada mesmo em frente da estação de vaporetto, enquanto se encontra numa zona já sossegada e longe do grande turbilhão turístico. Uma vez mais, nada de luxos, mas conforto, simpatia e limpeza. O que se pode pedir mais ?
Devo referir que achamos a taxa turística de Veneza relativamente barata em comparação com cidades como Barcelona. Se por um lado penso que deveriam subir esse custo para financiar o que a cidade está a sofrer com o turismo de massas, sobretudo com os gigantescos cruzeiros, que parecem os monstros ao pé da bela; Por outro lado entendo que pelo menos incentivam os turistas a ficarem a dormir em Veneza em oposição ao toca e foge dos cruzeiros ou às estadias na cidade vizinha Mestre, que acabam por absorver grande parte do dinheiro investido pelos turistas.
Depois de deixar as bagagens, começamos então o nosso roteiro , iniciado pelos museus ali bem pertinho dos nosso hotel , na verdade mesmo do outro lado do Canal! Falta ainda so referir que adquirimos previamente on-line o cartão Veneziaunica, que pode ser personalizado e permite usar imensas combinações de transportes, entradas de museus e igrejas, transferes de e para o aeroporto etc… penso que vale muito a pena. Depois ao chegar a Veneza há bilheteiras e máquinas próprias no aeroporto e nas estações de comboio para trocar o voucher pelo bilhete e começar logo a usar. É muito fácil.
O DIA 1
Este não é um típico roteiro de Veneza, mas algo alternativo . Queríamos ver os segredos, os tesouro guardados das multidões, enquanto intercalávamos com algumas das mais emblemáticas e incontornáveis atrações, pois para os meus acompanhantes era a primeira vez na cidade. Ao deixar o hotel começámos a nossa visita saindo logo na estação de vaporetto seguinte, do outro lado do canal: San Stae. Daí dirigimo-nos ao Palazzo Mocenigo. Este palácio decorado ao estilo do século XVIII, foi uma das casas de uma das famílias venezianas mais importantes, e é hoje um interessante museu que mantém o seu ambiente da época de ouro intacto. Conta com uma excelente exposição de perfumaria e também exemplos de trajes da época, entre muitas outras curiosidades e obras de arte. A nossa visita decorreu na maior tranquilidade. Estávamos quase sós num belíssimo palácio veneziano, no pico da época turística
Depois da visita, e se tiverem fome, aconselho, ali mesmo ao lado, a Osteria Mocenigo , não vai desiludir. Especialista em pastas , e frequentada por locais, tem uma lasanha deliciosa, que só posso recomendar !

Mesmo ao lado, um outro museu muito interessante e ainda mais se viajarem com crianças. O museu de História Natural está localizado no Fondaco dei Turchi, uma antigo e lindíssimo palácio do século XIII mesmo em cima do Grande Canal. As suas coleções incluem dinossauros e vestígios das primeiras criaturas vivas, galerias de animais marinhos, insetos entre muitos outros, bem como antigas coleções de animais exóticos e até… uma sereia. Está muito bem legendado e apresentado e foi de facto uma surpresa. Uma vez mais, uma visita calma e serena. Mais um ponto na nossa Veneza alternativa.
O resto da tarde foi preenchido a deambular pelas pequenas e estreias ruas e fondamenti dos bairros de Santa Croce e San Polo, no sentido da ponte Rialto, até lá chegar. Não há melhor forma de conhecer Veneza do que vaguear um pouco sem rumo e deixar-nos surpreender sem pressas.
No fim da tarde passamos para outro bairro, também bem tranquilo, mas não menos interessante e onde se situava o nosso hotel: Canarregio. Interessantíssimo passear pelo Ghuetto Novo, o antigo bairro judeu, intensamente sereno e cheio de recordações de outros tempos, e se houver tempo visitar o Museu Hebraico, mesmo ao lado da Sinagoga. Acabámos por jantar não muito longe dali, numa esplanada com vista para um pequeno canal, num restaurante bem reconhecido, O Timon, ondes umas fritatas de peixe local e uns gnocci com filetes de peixe leão nos deixaram deliciados. Não esquecer de provar também os cichetti, tapas veneziana deliciosas e muito em conta!
Um dia em cheio que nos brindou com uma noite veneziana belíssima de encher a alma. Para quem quer fazer um belo passeio romântico de Gôndola, porque não aproveitar a tranquilidade desta hora?

O DIA 2
No segundo dia não foi possível contornar uma das atrações principais de Veneza e misturarmo-nos um pouco com as multidões. A ideia era ver a Basílica de S. Marcos, mas decidimos fazê-lo logo cedinho. Antes de sair marcamos on-line, aqui, as nossas entradas sem fila, para não perder tempo, para daí a cerca de uma hora e um quarto. Assim tomando o Vaporetto linha 2, mesmo à saída do hotel, iniciámos a descida pelo Grande Canal, espinha vertebral da cidade e que é em si um passeio imperdível , pois daí se avistam os edifícios mais grandiosos e icónicos da cidade, até finalmente desaguar na grande laguna.
S. Marcos é sempre fascinante e inesquecível. Passeámos pela praça, que ia ficando cada vez mais cheia, até chegar a nossa hora de entrada na basílica. Lá dentro, a visita é rápida, pois não nos deixam parar muito, mas podemos escolher visitar várias secções pagando um bilhete extra (5 €). Nestas secções, bem interessantes, tudo tranquilo. A visita ao Palazzo Ducale é quase obrigatória, mas desta vez saltámos, pois já conhecia. As filas e as multidões tornavam-se compactas por ali. Depois de uma espreitadela à ponte dos suspiros, decidimos rumar a paragens mais calmas.
Seguimos pelas estreitas ruas, passando pelo teatro La Fenicce, (que pode ser visitado) e cruzando a ponte da Academia para ter uma boa visão do bairro de S. Marco. Em seguida tomámos a direção do Campo de Sta. Margarita, já no bairro de Dorsudoro, mas antes de lá chegar, na cale Le Toletta , chamou-nos a atenção uma montra de umas sanduiches bem apetitosas…Tratavam-se de tramezinni, sanduiches de variadíssimos recheios, bem típicas de Veneza, e ideias para um almoço leve e em conta. O bar AllaToletta, é frequentado sobretudo por locais.
A nossa deambulação continuou no sentido do bairro de San Polo, passado por diversos campi, ou praças e pequenas rua e canais, alguns deles com pequenos mercados. Uma loja, entre muitas, nos chamou a atenção pela qualidade e diversidade das lindíssimas máscaras venezianas que exibia. Viemos a descobrir, que foi a fornecedora oficial do filme “Eyes Wide Shut” e que aqui poderão de certeza encontrar uma bela recordação para levar. Trata-se de Ca’macana Venezia e merece certamente uma visita.
Para a tarde tinha destinado duas visitas já no bairro de San Polo, a que se chega depois de atravessar o Campo San Pantalon: A Scoula Grande di San Rocco, cujas pinturas são consideradas a obra prima do grande pintor veneziano Tintoretto e a muito próxima e espetacular Basilica de Santa Maria Gloriosa dei Frari.
Tanto numa quanto noutra encontramos magníficos exemplos da arquitetura e pinturas venezianas e valem bem a visita. Se a primeira é conhecida como a capela sistina de Veneza, tal a espetacularidade das suas pinturas, na segunda podemos encontrar dos mais refinados exemplos de obras de artistas venezianos desde a época medieval ao neoclássico do séc. XIX. Uma vez mais ambas estão fora dos principais roteiros turísticos e as visitas são tranquilíssimas o que nos deixa apreciar com toda a calma, tudo o que têm para oferecer.
A tarde já ia longa, mas depois de uma pausa, e de um gelado, ainda houve tempo para cruzar o grande canal para o outro lado e explorar os limites dos bairros de Canareggio e Castelo, onde pudemos finalmente ver algumas zonas calmíssima e residenciais, a até algum venezianos genuínos, o que acreditem ou não, não é tão simples. No limite encontramos novamente a laguna, e a vista já para a ilha de Murano, que com Burano, ficará para uma próxima visita.
O dia terminou com uma bela e honesta pizza na Tratoria Casa Mia, sem preços exagerados e com um ambiente muito caseiro.
Obviamente que muito mais haveria para ver e fazer em Veneza. E que poderíamos seguir assim, à descoberta de locais maravilhosos, por muitos outros dias. Este é um roteiro despretensioso que pretende apenas dar algumas ideias alternativas ao roteiro turístico, saturado de multidões crescentes e que pretende provar que é ainda é possível viver este destino com calma, serenidade e (quase sempre ) longe das massas turísticas que desejam ver sempre o mesmo para por o “visto” na lista e corrompem o ideal que fizemos de determinado sítio. Muitos se desiludem com Veneza precisamente por estas razões. mas Veneza, a Sereníssima , é muito mais do que isso, e merece ser descoberta sem pressas, sem multidões, e com os olhos do coração.



































Adorei a descrição e as fotos…!!! Até parece que nunca fui a Veneza… porque essa …eu não conheci …
bjs
Ecila
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Veneza e única ! E cada viagem pode ser diferente ! Obrigada 😘
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Excelente descrição que entusiasma a voltar a Veneza, obrigado.
Adorei as fotos
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Obrigada 😊
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