Um dia em Bolonha, a cidade de deliciosas surpresas

Bolonha, capital da província da Emilia-Romagna, nem sempre merece um grande destaque no roteiro de muitos viajantes em Itália, e, no entanto, pode revelar-se uma agradável surpresa, pois é uma cidade bela, muitíssimo interessante , com uma história brilhante, e onde, apesar dos monumentos antiquíssimos que possui, se respira um ambiente jovem e descontraído muito graças aos estudantes da sua famosíssima Universidade, que é conhecia por ser a mais antiga da Europa ( foi fundada em 1088). Os voos para Bolonha, oferecidos desde Lisboa, pela Tap e pela Ryanair, no momento em que escrevo, têm preços muito mais convidativos do que para outras cidades Italianas como Roma, ou mesmo Veneza, fazem dela um apetecível destino para uma escapadinha Italiana, uma como base de um périplo pela região, ou mesmo pelo país. Além disso para nós tinha ainda um vantagem extra… Bolonha é conhecida por ser uma das capitais gastronómicas de Itália.. só por isto já prometia!

A cidade é conhecida por 3 atributos prometedores, e vou começar pelo último, pois é aquele que logo se evidencia: La Rossa, a vermelha. Com este deparamo-nos logo assim que chegamos: As colorações dos seus edifícios, desde os arredores, e depois ainda com mais evidência no centro, são esmagadoramente em tons ocre, com predomínio dos alaranjados e vermelhos. Isto dá à cidade um carácter uniforme, caloroso e bem distinto. La Dotta, claro, ou a que tem o conhecimento, devido à sua antiquíssima Universidade, fundada em 1088 e a mais antiga da Europa. E por fim, e certamente não menos importante, La Grassa, a gorda, devido à fama mundial que tem a sua cozinha local, e onde comprovadamente se come bem com muitíssima facilidade. Aliás, em Bolonha o difícil é comer mal, tal é a variedade de pratos locais mundialmente famosos, restaurantes, trattorias e osterias, e loja repletas de iguarias: queijos, pastas frescas, prosciuttos da vizinha Parma, que fazem água na boca e nos recordam que os olhos também comem, valem bem uma visita… Acabadinhos de chegar ao aeroporto Marconi, dirigimo-nos ao Aerobus, para o centro da cidade, neste caso a estação central de Bolonha. O bilhete para o Aerobus custa 8 € por pessoa e o circuito e circular com paragens no Aeroporto, Hospital Central de Bologna, às portas da cidade e Estação Central de comboios, a mais perto do centro. O bilhete é adquirido numas máquinas, e aconselho que o façam nas do interior do aeroporto, com muito menos filas que a do exterior ao pé da partida do autocarro. Saídos na estação central e sentindo já na pele o duro calor emiliano, percorremos a pé os cerca de 700 metros até o Hotel escolhido … Ah! e demos logo graças pelas arcadas de Bolonha. Uma das mais interessantes particularidades da cidade, são as suas enormes extensões de ruas com edifícios com belas e elegantes arcadas, que nos protegem habilmente do sol no verão e da chuva no inverno

Debaixo das arcadas de Bolonha

Depois de uma curta viagem a pé sob as arcadas, desde a estação central, chegámos por fim ao hotel escolhido. A sua localização foi o fator chave que nos fez decidir, pois situa-se comodamente entre a estação central e o centro histórico e coração desta cidade. O Nuovo Hotel Del Porto, é um hotel simples, mas honesto no que oferece e confortável o suficiente para tornar a nossa estadia agradável. A sua localização a meu ver é mesmo o seu ponto forte. Depois da bagagem pousada e descansar as pernas por uns minutos estávamos prontos para a nossa exploração bolonhesa.

A nave principal da Catedral de S. Petrónio

Rapidamente nos encontra-mos na principal artéria da cidade histórica em direção às praças principais, Piazza del Nettuno, com a fonte que lhe dá o nome , a Piazza Maggiore, pegada a esta e a Catedral de S. Petrónio. Piazzas lindíssimas, que nos fazem sentir toda a elegância que a arquitetura italiana tem para nos oferecer. A Visita à Catedral, é mesmo incontornável. Na sua eterna cor Rossa, como a própria cidade, conta-nos histórias com muitos séculos bem vividos. A catedral foi construída no final do século XIV e a sua fachada está incompleta, como se repara de imediato, no entanto o seu interior é magnífico, imenso e amplo, ( a nave principal tem mais de 130 metros) ,recheado de magnificas de obras de arte nas naves e nas capelas laterais, dignas de uma visita minuciosa.

Capela de Santo António na Catedral de S. Petrónio, Bolonha
Linha meridiana construída em 1655, traçada no pavimento da Catedral. De um furo em uma das arcadas entra um raio de sol que bate na linha mármore na meridiana onde estão esculpidos os sinais dos dias, meses e das estações

Depois de deixar a catedral, nada melhor que um gelatto italiano para nos refrescar do calor bolonhês, que nesse dia rondava os 36 º C, com bastante humidade. A nossa opção foi a geladaria Il Giardino di Greta, mesmo ali alo lado da catedral na Via D’Azeglio. Gelados deliciosos e artesanais que não desiludiram. Ali perto, recomendamos, para quem tem tempo e quer aproveitar o máximo de monumentos históricos que a cidade tem para oferecer, dirigir-se ao Archisignnasio, visitando a sua biblioteca e o interessantíssimo teatro anatómico, depois de contornar a catedral de S. Petrónio na direção oposta.

Os topos das torres Garisenda e Asinelli nos seus imponentes 48 e 98 metros, respetivamente

Voltando à praça da Catedral e dirigindo-nos para a direita, começamos a vislumbrar os cumes das torres imensas, que são símbolo desta cidade. As torres Asinelli e Garisenda guardam Bolonha do alto dos seus muitos metros de altura, quais verdadeiros arranha céus medievais quase milenares .A torre Asinelli foi construída no século XII, e conta com uns impressionantes 98 metros de altura. A Garisenda, mais baixa e mais recente (sec . XIV) começou a inclinar-se durante a sua construção e hoje parece mesmo que pode cair sobre nós a qualquer momento, não é visitável, claro, por motivos de segurança. Já a Asinelli pode ser visitada e com alguma coragem vale bem a pena a penosa subida para disfrutar da vista daquela torre magnífica.

Nas ruas do centro de Bolonha é fácil perdermo-nos nas antigas charcutarias, recheadas de iguarias locais como os queijos, o prosciutto da vizinha Parma ou as pastas frescas. Uma tentação…

Em seguida, dirigimo-nos a um espaço que estava bastante curiosa para conhecer. Um complexo de igrejas, de várias épocas, cujos edifícios mais antigos remontam à alta idade média – século VII, sendo um aglomerado bastante sui generis na arquitetura religiosa cristã. Este complexo, conhecido como Basílica de Santo Stefanno, ainda hoje é casa de monges beneditinos que tem todo o gosto em nos acompanhar na visita e nos dar algumas explicações interessantes, em italiano claro, como a que ouvimos sobre um túmulo de uma alfaiate, cuja tesoura de ferro, instrumento do seu ofício ainda hoje decora o seu túmulo num dos claustros. Vale a pena tentar descobri-la. Os monges têm ainda no mosteiro uma ervanária, herdeira dos seus conhecimentos botânicos, que conta com vários produtos herbais, cosméticos e alimentares de grande qualidade, entre outros artigos regionais e religiosos.

O complexo de Santo Stefanno

Dentro do complexo vamos passado de igreja para igreja, todas elas de pequenas dimensões. A que mais nos impressionou foi a que conta com uma charola, tal como a nossa do convento de Cristo em Tomar, e que, tal como esta, vai buscar a sua clara inspiração à Igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém. Já conhecemos as duas primeiras, falta-nos conhecer a última, que foi de facto a primeira, e ficou logo aqui desenhado um projeto para uma nova viagem!

Charola da Igreja do Santo Sepulcro, no complexo de Santo Stefano. Pensa-se que foi construída no século V e reconstruída no século XII

Depois desta exaustiva exploração, merecíamos um momento de descanso! Era sábado e o fim de tarde estava bem agradável. Depois de um dia super quente, umas brisas suaves começavam a correr pelas estreitas ruas do centro da cidade. Grupos de locais, de estudantes e de turistas aproveitavam a temperatura agradável para se juntaram nas esplanadas a saborear uma aperitivo. Reparei que o aperol-spritz era a bebida de eleição e não me fiz rogada a experimentar também o sabor amargo mas refrescante desta original bebida laranja … Um fim de tarde mesmo em cheio, relaxando e  saboreando as bebidas enquanto observávamos a vida da cidade que nos envolvia.

Enquanto procurávamos o bar para tomar estas bebidas demos com um restaurante que nos pareceu mesmo bem. Não nos enganaríamos. Deixámos logo mesa marcada no histórico Ristorante Grassili, que não nos desiludiu. Espreitem aqui, para saber como correu.

Ainda antes do jantar tivemos tempo para desvendar mais um dos segredos de Bolonha. Sabiam que Bolonha também tem canais? Pois é. Ou melhor ainda, a cidade foi construída sobre diversos canais,  e em mais do que um sentido. A grande maioria está hoje inacessível debaixo da cidade, no entanto em alguns sítios eles ainda são visíveis. Este antigo e complexo sistema de canais, começou a ser construído no século XII e, no século XV, os sistemas hidráulicos dos engenhos , eclusas e moinhos que alimentava eram uma das maravilhas de Itália. Serviam ainda para a ligação desta cidade interior ao rio Pó e por consequência ao mar. A riqueza de Bolonha  foi também construída sobre estes canais . Hoje podemos espreita-los, por exemplo na via Piella, próxima da Via Indipendenzza. Aí, numa insuspeita parede de um prédio, sob uma arcada, abrimos uma janelinha e somos surpreendidos pelos famosos canais escondidos, e vestígios de lavadouros onde antigamente as donas de casa bolonhesas faziam a barrela.  Depois desta surpresa final, podíamos finalmente dedicar-nos ao esperado jantar.

Cinema ao ar livre na Piazza Maggiore

Ao sair do restaurante, constatámos que a vida cultural bolonhesa vibrava. Na Piazza Maggiore um enorme ecrã ao ar livre, projetava um êxito de Hollywood,  para uma audiência compacta. No edifício em frente,  do lado direito da Piazza del Nettuno, estava a começar um festival de Jazz aberto a todos,  grupos de jovens conversavam nas escadarias e nas esplanadas um pouco por todo o lado. O ambiente era descontraído e leve. Que noite magnífica! Bolonha ganhaste definitivamente o nosso coração…e o nosso estômago !

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